História da Medalha de Campanhas: Roussilhão (1793-1795)

O Marechal de Campo Francisco de Magalhães Pizarro (1776-1819), usando a Granada de ouro no braço esquerdo.

Entre 10 e 11 de dezembro do longínquo ano de 1795, chegavam ao porto de Lisboa as tropas portuguesas que vinham de ter participado nas Campanhas do Roussilhão. Após a paz separada, negociada entre a Espanha e França, através do Tratado de Basileia, assinado a 22 de julho desse ano, e que deixou Portugal de fora, os nossos soldados voltavam finalmente a casa. Eram o Exército Auxiliar à Coroa de Espanha, forte de cinco mil homens entre infantaria e artilharia, comandandos pelo tenente general John Forbes, enviados por Portugal no âmbito da Primeira Coligação.

Nos Quadros Navaes (1869), Joaquim Soares dá-nos o cenário de felicidade que sempre acontece quando os nossos soldados retornam à Pátria. O príncipe regente D. João, que vinha na altura de Queluz para as Necessidades, sabendo da chegada de algumas das embarcações a Lisboa, tomou a decisão de embarcar no cais de Belém ao seu encontro. No dia seguinte, o príncipe fez questão de assistir, da varanda do palácio de Belém, com sua esposa, a princesa D. Carlota Joaquina, ao desembarque dos bravos. Estes, à medida que tocavam de novo no solo pátrio, começavam a formar. Completando o cenário, e como refere Joaquim Soares, “offerecia um bem terna scena a grande multidão de gente que se achava no local […], e em todas as ruas por onde as Tropas devião passar, para mostrarem a sua consolação em ver restituidos ao Paiz os parentes e amigos” [1].

O Brigadeiro Jorge Frederico Lecor (c. 1770-1822), usando a Peça no braço direito, de forma regulamentar, mas em ouro (Museu Quinta das Cruzes).

A Campanha do Roussilhão, ou Guerra dos Pirinéus, como também ficou conhecida, foi um dos conflitos da chamada Guerra da Primeira Coligação, que decorreu em vários teatros, entre 1792 e 1797. A participação portuguesa neste conflito tornou-se inevitável, tendo em vista um acontecimento notável: a execução do rei Louis XVI, na atual praça da Concorde, às 10:20 do dia 21 de janeiro de 1793. Ainda que não tenha optado por uma participação direta, Portugal enviou uma força para auxiliar a Espanha no teatro dos Pirinéus, forte de 5000 homens, a mesma que agora retornava.

 

Seis dias depois destas enternecedoras cenas da receção das tropas portuguesas, nascem, no Palácio de Queluz, as primeiras insígnias falerísticas (i.e., de distinção) destinadas a comemorar a participação de soldados portugueses numa campanha. A 17 de dezembro, O Príncipe Regente D. João assina dois decretos em que estabelece a ‘Granada’ e a ’Peça’, para premiar os dois ramos que combateram nos campos do Roussilhão e na Catalunha; efetivamente a primeira ‘medalha’ de campanhas das Forças Armadas Portuguesas. Não desprezando outras peças de natureza falerística anterior (quiçá mais próximas da exonumia), estas foram as primeiras a ser criadas para serem usadas pelos soldados e, mais, por todas as classes, desde os mandantes aos praças.

A Granada, de ouro para oficiais, em prata para cadetes, em seda branca para os sargentos e em lã branca para os soldados, era destinada a ser usada bordada no braço direito e consistia do desenho de uma granada tendo por objetivo distinguir todos os militares de infantaria que participaram na campanha. Era o mesmo tipo de granada que sempre havia identificado os granadeiros, tradicionalmente a élite dos regimentos de infantaria portuguesa.

A Peça, de prata para os oficiais e cadetes, de seda branca para os sargentos e de lã da mesma cor para os praças, para usar também bordada no braço direito, premiava por sua vez todos os militares de artilharia. Apesar do decreto estipular que a peça deveria ser de prata para todos os oficiais, podemos observar na imagem do brigadeiro Jorge Frederico Lecor, que terá havido o hábito, oficial ou não, de usar a insígnia em ouro, igualando o ouro usado na Granada dos oficiais de infantaria.

Começa assim a epopeia das medalhas de campanhas, ainda no século XVIII, comemorando os feitos dos soldados portugueses e por eles portadas em símbolos de distinção e honra.

[1] SOARES, Joaquim Pedro Celestino (1869), Additamentos aos Quadros Navaes e epopéa Naval Portugueza (tomo IV), Lisboa: Imprensa Nacional – p.19.

Fontes:
ESTRELA, Paulo Jorge (2008), Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824, Lisboa: Tribuna da História.

Ligações:
“Distintivos honoríficos”, Blogue Talabarte, in: http://talabarte-marr.blogspot.pt/2011/04/exercito-auxiliar-espanha-1793-1795_17.html (com imagens dos dois decretos)

Sobre Jorge Quinta-Nova 71 artigos
Rato de biblioteca. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas na UAL, pesquisa desde 2007 o Exército Português nos finais do Antigo Regime, durante as Guerras Revolucionárias, principalmente Carlos Frederico Lecor, de quem anda reconhecidamente Em Busca. É um reputado amante da Medalha Militar, entre a fundação em 1863 e 1911.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*