Claudio de Chaby e os Excerptos Historicos

Cláudio de Chaby (1818-1905) é, sem dúvida, um dos grandes historiadores militares portugueses do século XIX e os Excerptos Historicos e colecção de documentos relativos á guerra denominada da Peninsula e ás anteriores de 1801, e do Roussillon e Cataluña, publicados em 1863 é o terreno onde mais se potenciou o seu talento literário. Parte do cronismo quase estatístico e elabora detalhadamente sobre a condição das tropas no terreno, em todos os níveis e classes sociais. Foi o grande compilador de memórias militares de vários oficiais das guerras revolucionárias, algumas delas inéditas.

A combinação de trabalho arquivista exaustivo e abrangente, a recolha de memórias pessoais dos protagonistas (qualquer que fosse o seu grau de importância hierárquica), e finalmente a elegância como descreve os acontecimentos de época, Estes são talvez os traços mais interessantes do autor

Em cartas suas no Arquivo Histórico Militar, Chaby refere-se a um veterano de Artilharia de Elvas que lhe contou alguns pormenores de um brinco militar próximo de Vila Viçosa, assistido pelo Principe Regente e D. Carlota (e pelo veterano, então moço), em inícios de 1806, meio século depois dos eventos, em que se recriava a batalha de Austerlitz, ganha por Napoleão no ano anterior, incluindo uma “réplica” da choça de Napoleão com função decorativa, além do jovem clarim negro da Legião de Alorna, com sua jaqueta azul celeste e mangas negras.

Aqui fica um pequeno excerto do seu primeiro volume, dedicado à Guerra do Roussilhão e Catalunha (1793-1795), especificamente sobre os acontecimentos de 17 e 20 de Novembro de 1794, quando o Exército Republicano faz recuar o Exército espanhol e, com este, o Exército Auxiliador português.

«O estrepito pavoroso das detonações da artilheria: o clarão vivaz da polvora incendiada, perturbando como em ondulações igneas de movimento tremulante e quasi sucessivo, a frouxa luz crepuscular; o estrondo repetido das descargas de espingarderia; o sinistro soído de ferros em golpes de pugna; o rumor do tropel dos ginetes em carreira: os clarins estridentes, as caixas de guerra chamando ao combate, tudo emfim que constitue o cortejo da guerra nos seus horrores e majestade, chamando morte, destruição, e sangue, tudo anunciava ao despontar d’aquelle dia o triumpho previsto e desejado por Perignon, a desgraça já imminente, e que em breve ia cair sobre o exercito peninsular; desgraça que, não obstante, illustrou o valor das tropas, o valor e a pericia de alguns generaes.»

Claudio de Chaby (1863), Excerptos Históricos (Volume I), Imprensa Nacional:Lisboa, p. 125.

Este volume pode ser lido ou descarregado em pdf no GoogleLivros, aqui.

(Seria interessante uma reedição anotada, facsimilada, desta excelente obra)


LIGAÇÕES
Conheça a biografia deste autor em Portugal Diccionario Historico, aqui
Ainda, o artigo “O General Cláudio Chaby, Cronista e Arquivista”, de Manuel Amaral, aqui.

Sobre Jorge Quinta-Nova 73 artigos
Rato de biblioteca. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas na UAL, pesquisa desde 2007 o Exército Português nos finais do Antigo Regime, durante as Guerras Revolucionárias, principalmente Carlos Frederico Lecor, de quem anda reconhecidamente Em Busca. É um reputado amante da Medalha Militar, entre a fundação em 1863 e 1911.

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