Revista das Tropas Destinadas a Montevidéu: 13 de Maio de 1816

Atribuído a Jean-Baptiste Debret (1768-1848), este óleo sobre o qual nos debruçamos, está na Pinacoteca Estadual de São Paulo, desde 2007, proveniente de doação pela Fundação Estudar. Chama-se “Revista das tropas destinadas a Montevidéu na Praia Grande”.

Jean-Baptiste Debret

Num estilo documental, muito comum em Debret, é-nos dado assistir à revista da Divisão de Voluntários Reaes (DVR), efetuada na Praia Grande, próximo a São Domingos, no que é hoje Niterói, na baía de Guanabara, assistida pelo já rei, e aniversariante, D. João VI, a sua esposa, Rainha Carlota Joaquina e os seus dois filhos, o Príncipe Real D. Pedro e o Infante D. Miguel. Vemo-los no grupo central, com o Marechal General William Carr Beresford (1768-1854) (de cabeça descoberta e calvo), a explicar as manobras à família real. Da esquerda para a direita, após Beresford, temos D. Miguel, com 13 anos, D. Pedro, com 17, o rei D. João VI e a infanta D. Maria Teresa. Atrás do real grupo, um coche descoberto, apesar de ter uma lona para quebrar o sol, a rainha D. Carlota e as suas filhas, em luto pela recente morte da Rainha D. Maria.

Em baixo, à direita, um grupo de oficiais a cavalo, afastados de família real, o Estado Maior da Divisão, contendo o comandante da DVR, tenente-general Carlos Frederico Lecor (1764-1836), e apesar de não poder confirmar com outros retratos existentes, decerto o Ajudante-General da DVR, marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, os dois comandantes de brigada, brigadeiros Jorge de Avillez (Zuzarte Ferreira de Sousa) (1785-1845) e Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro (1776-1819). Completando o grupo, estão os ajudantes de ordens destes oficiais generais.
O n.º 3 da DVR, Sebastião da Silveira Pinto (1780-1830), Quartel Mestre General, estava já na ilha de Santa Catarina, com a artilharia e a cavalaria, não estando decerto presente.

O traço de Jean Baptiste Debret imortalizou a revista de 13 de maio de 1816, dia do 49.º aniversário real e que foi um dos pontos altos da passagem da divisão pelo Rio de Janeiro. Podemos ver, em toda a tela, as unidades, fundamentalmente a infantaria da divisão, forte de 3600 homens, a desenvolver manobras. Do alto dos dois morros à esquerda, pode-se ver o fumo dos disparos, das várias unidades já lá presentes. Mais próximo, no canto inferior esquerdo, vemos um oficial superior (a cavalo) dando instruções a um oficial subalterno.

A decisão tomada, há muito tempo, pelo Governo Português de aproveitar Monte Vídeo para servir de fronteira no Brasil, perto das possessões espanholas, finalmente teve a sua execução em 1816; e tudo foi preparado para formar o bloqueio desta cidade espanhola, quando chegamos ao Rio de Janeiro.
Mas a estada temporária da corte na Prahia Grande, motivada por tropas portuguesas para esta expedição. No entanto, após os desenvolvimentos militares oferecidos todos os dias como uma distração para o Regente, o Marechal Beresford, chefe das tropas portuguesas, organizou uma última grande revista concluída por uma pequena guerra simulada neste local pitoresco, que por sua vez teve variadas posições para o ataque ou a defesa de uma variedade de colinas ainda bastante elevadas, e intercaladas com areia solta e vales húmidos cobertos de juncos.
Neste feliz teste de tática militar, dado em 12 de maio de 1816, seguiram-se alguns dias de descanso, precursores gerais do embarque desses soldados, que foi realizada também na presença da corte, na margem do Prahia- grande, 21 de maio do mesmo ano.

in: DEBRET, J.B., Voyage Pittoresque et Historique au Brésil ou Séjour d’un Artiste Français au Brésil (3 v.), Paris, Firmin Didot Frères, 1834.

O dia foi, para todos os que assistiram, memorável, pela disciplina e ordem que os soldados portugueses demonstraram, a personificação do heroísmo da Guerra Peninsular à sua frente.
Três semanas depois, a divisão embarcaria para a ilha de Santa Catarina de onde efetuará as operações militares para a pacificação da Banda Oriental ou a Invasión Luso-Brasileña. Também Debret capturou para a posteridade esse momento a 7 de junho, e iremos decerto visitar essa obra no futuro.

“No centro, um grupo de cavaleiros: o rei D. João VI, em cavalo branco, tem à direita o príncipe D. Pedro e o infante D. Miguel e à esquerda, montada, a amazona a ‘infanta viúva’ D. Maria Teresa. Esses quatro personagens viviam no Palácio de S. Cristóvão e formavam, como comenta o pintor na descrição do ‘Embarque das Tropas’, o grupo ‘inseparável que se encontrava diariamente a cavalo ou de carro’. No pequeno carro, atrás do rei, vislumbra-se o busto do Conde da Barca, então ministro e secretário de Estado. à esquerda de D. Miguel, também a cavalo, o marechal Lord Beresford, comandante em chefe das tropas portuguesas, em atitude respeitosa, tem, na mão direita, o chapéu armado e se dirige ao soberano para indicar-lhe ter terminado o desfile e solicitar-lhe autorização para o início de outros exercícios militares. Atrás, à direita dos cavaleiros e do carro do Conde da Barca, estão a rainha D. Carlota Joaquina e as filhas ‘que ela nunca abandonava’, como assinala também Debret, em um grande coche aberto, protegido do sol por toldo sobre ele estendido. À sua sombra, vêem-se quatro damas e o cocheiro em grande uniforme. No primeiro plano, à direita, está um grupo de oficiais entre os quais sobressai, em cavalo branco, o tenente-general Carlos Frederico Lecor, comandante dos Voluntários e mais tarde governador da Província Cisplatina e Visconde da Laguna [NB: Também se notam o Ajudante-General da DVR, marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, os dois comandantes de brigada, brigadeiros Jorge de Avillez (Zuzarte Ferreira de Sousa) (1785-1845) e Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro (1776-1819)]. No primeiro plano, à esquerda, um batalhão de caçadores, que parece ser o último do desfile, recebe ordens de um oficial a cavalo enquanto outro, chegando a galope, a ele se aproxima [NB: o segundo oficial traja de azul ferrete, logo é bastante provável que seja de Cavalaria; o primeiro oficial a cavalo é claramente oficial superior do batalhão]. No segundo plano, um pouco à direita, dois generais e seus ajudantes de ordens galopam em direção à tropa. À esquerda, está o morro da Armação, já atingido por um batalhão e para ele dois outros se dirigem. A fumaça que acompanha as estradas de acesso parece indicar que se inicia a ‘guerra simulada’ a que se refere Debret. Ao fundo, o Corcovado, o Pão de Açúcar e outras serras, do outro lado da baía.”

IN: João Hermes Pereira de Araújo, “As primeiras obras de Debret e Taunay pintadas no Brasil” in: Anais do Seminário Internacional D. João VI Um Rei Aclamado na América, Museu Histórico Nacional, 2000, Rio de Janeiro. pp. 202-207

Ligações
Óleo na Google Art Projecto (foto de Isabella Matheus) : ver
Pinacoteca Estadual de São Paulo: http://www.pinacoteca.org.br

Imagem
J.B. Debret, “Revista das tropas destinadas a Montevidéu, na Praia Grande, 1816”,
óleo sobre cartão colado sobre tela, 41,6 X 62,9

Sobre o autor

Jorge Quinta-Nova
Rato de biblioteca. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas na UAL, pesquisa desde 2007 o Exército Português nos finais do Antigo Regime, durante as Guerras Revolucionárias, principalmente Carlos Frederico Lecor, de quem anda reconhecidamente Em Busca. É um reputado amante da Medalha Militar, entre a fundação em 1863 e 1911.

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